{"id":64,"date":"2018-03-23T15:57:03","date_gmt":"2018-03-23T15:57:03","guid":{"rendered":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/?p=64"},"modified":"2018-03-28T16:00:12","modified_gmt":"2018-03-28T16:00:12","slug":"v-pregacao-da-quaresma-texto-integral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/2018\/03\/23\/v-pregacao-da-quaresma-texto-integral\/","title":{"rendered":"V Prega\u00e7\u00e3o da Quaresma \u2013 texto integral"},"content":{"rendered":"<p>O Pregador da Casa Pontif\u00edcia, padre Raniero Cantalamessa OFM, prop\u00f4s ao Papa Francisco e \u00e0 C\u00faria reunidos na Capela Redemptoris Mater, no Vaticano, a quinta e \u00faltima prega\u00e7\u00e3o da Quaresma, intitulada \u201cUsemos as armas da luz \u2013 A pureza crist\u00e3\u201d. Confira o texto na \u00edntegra:<\/p>\n<p><strong>\u201cA pureza crist\u00e3<\/strong><\/p>\n<p>Em nosso coment\u00e1rio \u00e0 par\u00eanese da Carta aos Romanos, chegamos ao ponto em que se diz:<\/p>\n<p>\u201cA noite vai adiantada, e o dia vem chegando. Despojemo-nos das obras das trevas e vistamo-nos das armas da luz. Comportemo-nos honestamente, como em pleno dia: nada de orgias, nada de bebedeira; nada de desonestidades nem dissolu\u00e7\u00f5es; nada de contendas, nada de ci\u00fames. Ao contr\u00e1rio, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e n\u00e3o fa\u00e7ais caso da carne nem lhe satisfa\u00e7ais aos apetites\u201d (Rm 13, 12-14).<\/p>\n<p>Santo Agostinho, nas Confiss\u00f5es, nos diz o lugar que esta passagem teve em sua convers\u00e3o. Ele j\u00e1 havia alcan\u00e7ado uma quase completa ades\u00e3o \u00e0 f\u00e9; as suas obje\u00e7\u00f5es haviam sido aniquiladas uma ap\u00f3s a outra e a voz de Deus se tornara cada vez mais urgente. Mas havia uma coisa que o detinha: o medo de n\u00e3o ser capaz de viver casto. Ele vivia, como sabemos, com uma mulher sem ser casado.<\/p>\n<p>Estava no jardim da casa que o abrigava, nas garras dessa luta interior e com l\u00e1grimas nos olhos, quando, de uma casa pr\u00f3xima, ouviu uma voz, como um menino ou menina, que repetia: \u201cTolle, lege!, Pegue, leia; pegue, leia!\u201d. Ele interpretou estas palavras como um convite de Deus e, tendo ao alcance das m\u00e3os o livro das Ep\u00edstolas de S\u00e3o Paulo, abriu-o ao acaso, determinado a considerar como vontade de Deus a primeira frase em que seu olhar se fixasse.<\/p>\n<p>A palavra em que seu olhar caiu foi, de fato, aquela da Carta aos Romanos que acabamos de mencionar. Uma luz de seguran\u00e7a brilhou dentro dele (lux securitatis), o que fez desaparecer toda a escurid\u00e3o da incerteza. Ele sabia agora que, com a ajuda de Deus, poderia ser casto[1].<\/p>\n<p>As coisas que o Ap\u00f3stolo, naquela passagem, chama \u201cobras das trevas\u201d s\u00e3o as mesmas que em outros lugares define \u201cdesejos, ou obras, da carne\u201d (cf. Rm 8,13; Gl 5,19) e as coisas que chama \u201carmas da luz\u201d s\u00e3o as mesmas que em outros lugares chama de \u201cobras do Esp\u00edrito\u201d, ou \u201cfrutos do Esp\u00edrito\u201d (cf. Gl 5, 22). Entre essas obras da carne \u00e9 enfatizada, com dois termos (koite e aselgeia), a devassid\u00e3o sexual, \u00e0 qual se op\u00f5e a arma da luz que \u00e9 a pureza.<\/p>\n<p>O Ap\u00f3stolo n\u00e3o se ocupa, no presente contexto, em falar desse aspecto da vida crist\u00e3; mas da lista dos v\u00edcios, colocada no in\u00edcio da Carta (cf. Rm 1, 26ss), sabemos qu\u00e3o importante era isso para os seus olhos. S\u00e3o Paulo estabelece uma liga\u00e7\u00e3o muito estreita entre pureza e santidade e entre pureza e Esp\u00edrito Santo:<\/p>\n<p>\u201cEsta \u00e9 a vontade de Deus: a vossa santifica\u00e7\u00e3o; que eviteis a impureza; que cada um de v\u00f3s saiba possuir o seu corpo santa e honestamente, sem se deixar levar pelas paix\u00f5es desregradas, como os pag\u00e3os que n\u00e3o conhecem a Deus; e que ningu\u00e9m, nesta mat\u00e9ria, oprima nem defraude a seu irm\u00e3o, porque o Senhor faz justi\u00e7a de todas estas coisas, como j\u00e1 antes vo-lo temos dito e asseverado. Pois Deus n\u00e3o nos chamou para a impureza, mas para a santidade. Por conseguinte, desprezar estes preceitos \u00e9 desprezar n\u00e3o a um homem, mas a Deus, que nos deu o seu Esp\u00edrito Santo.\u201d (1 Ts 4, 3-8)<\/p>\n<p>Por isso, procuremos reunir esta \u00faltima \u201cexorta\u00e7\u00e3o\u201d da palavra de Deus, aprofundando o fruto do Esp\u00edrito que \u00e9 a pureza.<\/p>\n<p><strong>1. As motiva\u00e7\u00f5es crist\u00e3s da pureza<\/strong><\/p>\n<p>Na Carta aos G\u00e1latas, S\u00e3o Paulo escreve: \u201cO fruto do Esp\u00edrito \u00e9 amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansid\u00e3o, autodom\u00ednio\u201d (Gl 5, 22). O termo grego original, que traduzimos com \u201cautodom\u00ednio\u201d \u00e9 enkrateia e tem uma gama muito ampla de significados; pode-se exercer, de fato, o dom\u00ednio de si no comer, no falar, no controle da ira, etc.<\/p>\n<p>Aqui, por\u00e9m, como nos demais, quase sempre no Novo Testamento, isso significa o dom\u00ednio de si em uma esfera bem precisa da pessoa, ou seja, no \u00e2mbito da sexualidade. Deduzimos isso do fato de que, pouco acima, elencando as \u201cobras da carne\u201d, o Ap\u00f3stolo chama porneia , ou seja, impureza, aquilo que se op\u00f5e ao dom\u00ednio de si (\u00e9 o mesmo termo do qual deriva \u201cpornografia\u201d!).<\/p>\n<p>Nas tradu\u00e7\u00f5es modernas da B\u00edblia, o termo porneia \u00e9 traduzido ora como prostitui\u00e7\u00e3o, ora como impureza, ora como fornica\u00e7\u00e3o ou adult\u00e9rio, e ora como outros voc\u00e1bulos. A ideia de fundo, contida no termo \u00e9, todavia, aquela de \u201cvender-se\u201d, de alienar o pr\u00f3prio corpo, portanto, de prostituir-se (pernemi, em grego, significa \u201cme vendo\u201d).<\/p>\n<p>Usando este termo para indicar quase todas as manifesta\u00e7\u00f5es de desordem sexual, a B\u00edblia diz que todo pecado de impureza \u00e9, em certo sentido, um prostituir-se, um vender-se.<\/p>\n<p>Os termos usados por S\u00e3o Paulo nos dizem, portanto, que s\u00e3o poss\u00edveis, com rela\u00e7\u00e3o ao nosso pr\u00f3prio corpo e a pr\u00f3pria sexualidade, duas atitudes opostas, uma atitude do Esp\u00edrito e a outra obra da carne; uma, virtude e a outra v\u00edcio.<\/p>\n<p>A primeira atitude \u00e9 conservar o controle de si e do pr\u00f3prio corpo; a segunda \u00e9, pelo contr\u00e1rio, vender ou alienar o pr\u00f3prio corpo, ou seja, dispor da sexualidade \u00e0 vontade, para fins utilitaristas e diversos daqueles para os quais foi criada; um transformar o ato sexual em um ato venal, mesmo que o \u00fatil em quest\u00e3o n\u00e3o seja sempre constitu\u00eddo pelo dinheiro, como no caso da prostitui\u00e7\u00e3o verdadeira e real, mas tamb\u00e9m pelo prazer ego\u00edsta como um fim em si mesmo.<\/p>\n<p>Quando falamos da pureza e da impureza em simples listas de virtudes ou de v\u00edcios, sem aprofundar a mat\u00e9ria, a linguagem do Novo Testamento n\u00e3o \u00e9 muito diferente da linguagem dos moralistas pag\u00e3os, por exemplo, dos Estoicos.<\/p>\n<p>At\u00e9 os moralistas pag\u00e3os exaltavam o dom\u00ednio de si, mas somente em fun\u00e7\u00e3o da quietude interior, da impassividade (apatheia), do autodom\u00ednio; a pureza era governada, para eles, pelo princ\u00edpio da \u201creta raz\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Na realidade, por\u00e9m, dentro desses velhos vocabul\u00e1rios pag\u00e3os, existe um conte\u00fado totalmente novo que brota, como sempre, do querigma. Isso j\u00e1 \u00e9 vis\u00edvel em nosso texto, onde a devassid\u00e3o \u00e9 contraposta, de modo muito significativo, como seu contr\u00e1rio, do \u201crevestir-se do Senhor Jesus Cristo\u201d.<\/p>\n<p>Os primeiros crist\u00e3os foram capazes de compreender este conte\u00fado novo, porque isso era objeto espec\u00edfico de catequese em outros contextos.<\/p>\n<p>Vamos agora examinar uma dessas catequeses espec\u00edficas sobre pureza, para descobrir o verdadeiro conte\u00fado e as verdadeiras motiva\u00e7\u00f5es crist\u00e3s dessa virtude que derivam do evento pascal de Cristo. Trata-se do texto de 1 Cor 6, 12-20. Parece que os Cor\u00edntios \u2013 talvez deturpando uma frase do Ap\u00f3stolo \u2013 alegassem o princ\u00edpio: \u201ctudo me \u00e9 l\u00edcito\u201d, para justificar tamb\u00e9m os pecados da impureza.<\/p>\n<p>Na resposta do Ap\u00f3stolo est\u00e1 contida uma motiva\u00e7\u00e3o absolutamente nova da pureza que brota do mist\u00e9rio de Cristo. N\u00e3o \u00e9 l\u00edcito \u2013 diz ele \u2013 entregar-se \u00e0 impureza (porneia), n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito vender-se, ou dispor de si \u00e0 vontade, pelo simples fato de que n\u00f3s n\u00e3o nos pertencemos mais, n\u00e3o somos nossos, mas de Cristo. N\u00e3o se pode dispor do que n\u00e3o \u00e9 nosso: \u201cN\u00e3o sabeis que os vossos corpos s\u00e3o membros de Cristo [\u2026] e que n\u00e3o pertenceis a v\u00f3s mesmos?\u201d (1 Cor 6, 15.19).<\/p>\n<p>A motiva\u00e7\u00e3o pag\u00e3 \u00e9, em certo sentido, invertida; o valor supremo a ser salvaguardado n\u00e3o \u00e9 mais o dom\u00ednio de si, mas o \u201cn\u00e3o dom\u00ednio de si\u201d. \u201cO corpo n\u00e3o \u00e9 para a impureza, mas para o Senhor!\u201d (1 Cor 6, 13): a motiva\u00e7\u00e3o \u00faltima da pureza \u00e9, portanto, que \u201cJesus \u00e9 o Senhor!\u201d. A pureza crist\u00e3, em outras palavras, n\u00e3o consiste tanto em estabelecer o dom\u00ednio da raz\u00e3o sobre os instintos, mas em estabelecer o dom\u00ednio de Cristo sobre toda a pessoa, raz\u00e3o e instintos.<\/p>\n<p>Esta motiva\u00e7\u00e3o cristol\u00f3gica da pureza torna-se mais convincente com aquilo que S\u00e3o Paulo acrescenta no mesmo texto: n\u00e3o somos apenas genericamente \u201cde\u201d Cristo, como sua propriedade ou sua coisa; n\u00f3s somos o pr\u00f3prio corpo de Cristo, os seus membros! Isso torna tudo imensamente mais delicado, porque significa que, ao cometer a impureza, eu prostituo o corpo de Cristo, realizo uma esp\u00e9cie de sacril\u00e9gio odioso; uso da \u201cviol\u00eancia\u201d ao corpo do Filho de Deus. Diz o Ap\u00f3stolo: \u201cTomarei ent\u00e3o os membros de Cristo e torn\u00e1-los-ei membros de uma prostituta?\u201d (1 Cor 6, 15).<\/p>\n<p>A esta motiva\u00e7\u00e3o cristol\u00f3gica, acrescenta-se em seguida aquela pneumatol\u00f3gica, isto \u00e9, relativa ao Esp\u00edrito Santo: \u201cOu n\u00e3o sabeis que o vosso corpo \u00e9 templo do Esp\u00edrito Santo que est\u00e1 em v\u00f3s?\u201d (1 Cor 6, 19). Abusar do pr\u00f3prio corpo \u00e9, portanto, profanar o templo de Deus; mas se algu\u00e9m destruir o templo de Deus, Deus o destruir\u00e1 (cf. 1 Cor 3, 17). Cometer impureza \u00e9 \u201centristecer o Esp\u00edrito Santo de Deus\u201d (cf. Ef 4, 30).<\/p>\n<p>Juntamente com as motiva\u00e7\u00f5es cristol\u00f3gicas e pneumatol\u00f3gicas, o Ap\u00f3stolo tamb\u00e9m menciona uma motiva\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica, que se refere ao destino final do homem: \u201cDeus, que ressuscitou o Senhor, tamb\u00e9m nos ressuscitar\u00e1\u201d (1 Cor 6, 14). O nosso corpo est\u00e1 destinado \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o; est\u00e1 destinado a participar, um dia, na bem-aventuran\u00e7a e na gl\u00f3ria da alma. A pureza crist\u00e3 n\u00e3o se baseia no desprezo do corpo, mas, ao contr\u00e1rio, na grande estima de sua dignidade.<\/p>\n<p>O Evangelho \u2013 diziam os Padres da Igreja ao combater os gn\u00f3sticos \u2013 n\u00e3o prega a salva\u00e7\u00e3o \u201cde\u201d carne, mas a salva\u00e7\u00e3o \u201cda\u201d carne. Aqueles que consideram o corpo um \u201ctraje estrangeiro\u201d, destinado a ser abandonado aqui, n\u00e3o possuem os motivos que o crist\u00e3o tem para mant\u00ea-lo imaculado.<\/p>\n<p>O Ap\u00f3stolo conclui a sua catequese sobre a pureza com o convite apaixonado: \u201cGlorificai, pois, Deus no vosso corpo\u201d (1 Cor 6, 20). O corpo humano \u00e9, portanto, para a gl\u00f3ria de Deus e expressa essa gl\u00f3ria quando a pessoa vive a pr\u00f3pria sexualidade e toda a sua corporeidade em obedi\u00eancia amorosa \u00e0 vontade de Deus, que \u00e9 como dizer: em obedi\u00eancia ao pr\u00f3prio sentido da sexualidade, \u00e0 sua natureza intr\u00ednseca e origin\u00e1ria que n\u00e3o \u00e9 aquela de vender-se, mas aquela de doar-se.<\/p>\n<p>Tal glorifica\u00e7\u00e3o de Deus atrav\u00e9s do seu pr\u00f3prio corpo n\u00e3o exige necessariamente a ren\u00fancia ao exerc\u00edcio da pr\u00f3pria sexualidade. No cap\u00edtulo imediatamente seguinte, isto \u00e9, em 1 Cor 7, S\u00e3o Paulo explica, de fato, que tal glorifica\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 expressa de duas maneiras e em dois carismas diferentes: ou atrav\u00e9s do casamento, ou atrav\u00e9s da virgindade. Glorifica a Deus em seu corpo a virgem e o celibat\u00e1rio, mas tamb\u00e9m o glorifica quem se casa, desde que todos vivam as exig\u00eancias do pr\u00f3prio estado.<\/p>\n<p><strong>2. Pureza, beleza e amor ao pr\u00f3ximo<\/strong><\/p>\n<p>Na nova luz que emergiu do mist\u00e9rio pascal e ilustrada at\u00e9 agora por S\u00e3o Paulo, o ideal da pureza ocupa um lugar privilegiado em toda s\u00edntese da moral crist\u00e3 do Novo Testamento. N\u00e3o existe, podemos dizer, uma carta de S\u00e3o Paulo na qual ele n\u00e3o dedique um espa\u00e7o, quando descreve a vida nova no Esp\u00edrito (cf. por exemplo, Ef 4, 17-5, 33; Cl 3, 5 12).<\/p>\n<p>Este requisito fundamental de pureza \u00e9 especificado, de tempos em tempos, de acordo com os diferentes estados de vida dos crist\u00e3os. As ep\u00edstolas pastorais mostram como a pureza deve ser configurada em jovens, mulheres, casais, idosos, vi\u00favas, presb\u00edteros e bispos; nos apresentam a pureza em suas v\u00e1rias faces de castidade, fidelidade conjugal, sobriedade, contin\u00eancia, virgindade, mod\u00e9stia.<\/p>\n<p>No seu conjunto, este aspecto da vida crist\u00e3 determina o que o Novo Testamento \u2013 de modo especial, as Ep\u00edstolas pastorais \u2013 chama de \u201cbeleza\u201d ou o car\u00e1ter \u201cbelo\u201d da voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3, que, fundindo-se com outra caracter\u00edstica, a de bondade, forma o ideal \u00fanico da \u201cboa beleza\u201d, ou da \u201cbela bondade\u201d, o que nos levou a falar, indiferentemente, tanto de obras boas como de obras belas.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, chamando a pureza de \u201cbela virtude\u201d, recolheu esta vis\u00e3o b\u00edblica, que expressa, apesar dos abusos e das \u00eanfases muito unilaterais que tamb\u00e9m houve, algo de profundamente verdadeiro. A pureza, de fato, \u00e9 beleza!<\/p>\n<p>Essa pureza \u00e9 um modo de vida, mais que uma \u00fanica virtude. Tem uma gama de manifesta\u00e7\u00f5es que vai al\u00e9m da esfera propriamente sexual. H\u00e1 uma pureza do corpo, mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma pureza do cora\u00e7\u00e3o que evita n\u00e3o s\u00f3 os atos, mas tamb\u00e9m os desejos e os pensamentos \u201cfeios\u201d (cf. Mt 5, 8.27-28).<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma pureza da boca que consiste, negativamente, em abster-se de palavras obscenas, de vulgaridades e futilidades (cf Ef 5, 4; Cl 3, 8) e, positivamente, na sinceridade e retid\u00e3o do falar, ou seja, no dizer: \u201csim, sim\u201d e \u201cn\u00e3o, n\u00e3o\u201d, a imita\u00e7\u00e3o do Cordeiro imaculado \u201cem cuja boca n\u00e3o se encontrou engano\u201d (cf. 1 Pd 2, 22). Finalmente, h\u00e1 uma pureza ou claridade dos olhos e do olhar.<\/p>\n<p>O olho \u2013 dizia Jesus \u2013 \u00e9 a luz do corpo; se o olho \u00e9 puro e claro, todo o corpo est\u00e1 na luz (cf. Mt 6, 22s; Lc 11, 34). S\u00e3o Paulo usa uma imagem muito sugestiva para indicar este novo estilo de vida: diz que os crist\u00e3os, nascidos pela P\u00e1scoa de Cristo, devem ser \u201cfermento de pureza e de sinceridade\u201d (cf. 1 Cor 5, 8). O termo usado aqui pelo Ap\u00f3stolo \u2013 eilikrin\u00e9ia \u2013 cont\u00e9m, por si s\u00f3, a imagem de uma \u201ctranspar\u00eancia solar\u201d. Em nosso pr\u00f3prio texto, ele fala da pureza como uma \u201carma da luz\u201d.<\/p>\n<p>Hoje em dia, tende-se a contrapor entre si os pecados contra a pureza e os pecados contra o pr\u00f3ximo e tende-se a considerar verdadeiro pecado somente o que \u00e9 feito contra o pr\u00f3ximo; ironiza-se, \u00e0s vezes, o culto excessivo concedido no passado \u00e0 \u201cbela virtude\u201d.<\/p>\n<p>Essa atitude, em parte, pode ser explicada; a moral havia enfatizado muito unilateralmente, no passado, os pecados da carne, at\u00e9 criar, por vezes, verdadeiras e reais neuroses, em detrimento aos deveres para com o pr\u00f3ximo e em detrimento da pr\u00f3pria virtude da pureza que foi, assim, empobrecida e reduzida a virtude quase somente negativa, a virtude de saber dizer n\u00e3o. Mas agora, por\u00e9m, se passou ao excesso oposto e se tende a minimizar os pecados contra a pureza, privilegiando (muitas vezes somente de palavra) uma aten\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo. O erro de fundo est\u00e1 no opor estas duas virtudes.<\/p>\n<p>A palavra de Deus, longe de opor pureza e caridade, liga-as intimamente uma a outra. Basta ler a continua\u00e7\u00e3o da passagem da Primeira Carta aos Tessalonicenses que mencionei no in\u00edcio, para entender como as duas coisas s\u00e3o interdependentes entre si segundo o Ap\u00f3stolo (cf. 1 Ts 4, 3-12). O prop\u00f3sito \u00fanico da pureza e da caridade \u00e9 ser capaz de levar uma vida \u201ccheia de decoro\u201d, isto \u00e9, \u00edntegra em todas as suas rela\u00e7\u00f5es, tanto em rela\u00e7\u00e3o a si mesmos quanto em rela\u00e7\u00e3o aos outros. No nosso texto, o Ap\u00f3stolo resume tudo isso com a express\u00e3o: \u201ccomportar-se honestamente como em pleno dia\u201d (cf. Rm 13, 13).<\/p>\n<p>Pureza e amor ao pr\u00f3ximo est\u00e3o entre si como o autocontrole e a doa\u00e7\u00e3o aos demais. Como posso doar-me, se n\u00e3o me possuo, mas sou escravo das minhas paix\u00f5es? Como posso doar-me aos demais, se n\u00e3o compreendi ainda o que me disse o Ap\u00f3stolo, ou seja, que n\u00e3o me perten\u00e7o e que o meu pr\u00f3prio corpo n\u00e3o \u00e9 meu, mas do Senhor?<\/p>\n<p>\u00c9 uma ilus\u00e3o acreditar que se pode colocar junto um aut\u00eantico servi\u00e7o aos irm\u00e3os, que requer sempre sacrif\u00edcio, altru\u00edsmo, esquecimento de si e generosidade, e uma vida pessoal desordenada, inteiramente voltada a gratificar a si mesmos e as pr\u00f3prias paix\u00f5es. Terminamos, inevitavelmente, por instrumentalizar os irm\u00e3os, como se instrumentaliza o pr\u00f3prio corpo. N\u00e3o sabe dizer \u201csim\u201d aos irm\u00e3os quem n\u00e3o sabe dizer \u201cn\u00e3o\u201d a si mesmo.<\/p>\n<p>Uma das \u201cdesculpas\u201d que mais contribuem para favorecer o pecado de impureza, na mentalidade popular, e eliminar qualquer responsabilidade, \u00e9 a indiferen\u00e7a do tanto faz, pois isso n\u00e3o faz mal a ningu\u00e9m, n\u00e3o viola os direitos e a liberdade dos demais, a menos \u2013 se fala \u2013 que se trate de viol\u00eancia carnal. Mas, al\u00e9m do fato de que viola o direito fundamental de Deus de dar uma lei \u00e0s suas criaturas, essa \u201cdesculpa\u201d \u00e9 falsa tamb\u00e9m com rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 verdade que o pecado de impureza termina com quem o comete. H\u00e1 uma solidariedade entre todos os pecados. Todo pecado, onde quer que seja e por quem quer que seja cometido, contagia e polui o ambiente moral do homem; este cont\u00e1gio \u00e9 chamado por Jesus \u201co esc\u00e2ndalo\u201d e \u00e9 condenado por ele com algumas das palavras mais terr\u00edveis de todo o Evangelho (cf Mt 18, 6 ss; Mc 9, 42 ss; Lc 17, 1 s). Mesmo os maus pensamentos que estagnam no cora\u00e7\u00e3o, de acordo com Jesus, poluem o homem e, portanto, o mundo: \u201cDo cora\u00e7\u00e3o v\u00eam os prop\u00f3sitos maus; os homic\u00eddios, os adult\u00e9rios, as prostitui\u00e7\u00f5es\u2026 Estas s\u00e3o as coisas que poluem o homem\u201d(Mt 15, 19-20).<\/p>\n<p>Todo pecado produz uma eros\u00e3o dos valores e todos juntos criam o que Paulo chama de \u201ca lei do pecado\u201d e da qual ele ilustra o terr\u00edvel poder sobre todos os homens (cf. Rm 7, 14ss). No Talmud judaico se l\u00ea uma par\u00e1bola que ilustra bem a solidariedade que existe no pecado e o dano que cada pecado, tamb\u00e9m o pessoal, faz aos demais: \u201cAlgumas pessoas estavam a bordo de um barco. Uma delas pegou uma broca e come\u00e7ou a fazer um buraco embaixo dela. Os outros passageiros, vendo, disseram-lhe: \u201cO que voc\u00ea est\u00e1 fazendo? \u2013 Ele respondeu: O que isso importa a voc\u00eas? Eu n\u00e3o estou fazendo o buraco debaixo do meu assento? \u2013 Mas eles responderam: \u2013 Sim, mas a \u00e1gua vir\u00e1 e nos afogar\u00e1 a todos!\u201d A pr\u00f3pria natureza come\u00e7ou a nos enviar sinais sinistros de protesto contra certos modernos abusos e excessos na esfera da sexualidade.<\/p>\n<p><strong>3. Pureza e renova\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Estudando a hist\u00f3ria das origens crist\u00e3s, fica claro com clareza que foram dois os principais instrumentos com o qual a Igreja conseguiu transformar o mundo pag\u00e3o da \u00e9poca; o primeiro foi o an\u00fancio da Palavra, o querigma, e o segundo o testemunho de vida dos crist\u00e3os, a martyria; e se v\u00ea como, no \u00e2mbito do testemunho de vida, duas foram, de novo, as coisas que mais surpreenderam e converteram os pag\u00e3os: o amor fraterno e a pureza dos costumes. J\u00e1 a Primeira Carta de Pedro menciona o assombro do mundo pag\u00e3o em face do teor de vida t\u00e3o diferente dos crist\u00e3os. Escreve:<\/p>\n<p>\u201cBaste-vos que no tempo passado tenhais vivido segundo os caprichos dos pag\u00e3os, em lux\u00farias, concupisc\u00eancias, embriaguez, orgias, bebedeiras e criminosas idolatrias. Estranham eles agora que j\u00e1 n\u00e3o vos lanceis com eles nos mesmos desregramentos de libertinagem, e por isso vos cobrem de cal\u00fanias.\u201d (1 Pd 4, 3-4).<\/p>\n<p>Os Apologistas \u2013 isto \u00e9, os escritores crist\u00e3os que escreveram em defesa da f\u00e9, nos primeiros s\u00e9culos da Igreja \u2013 atestam que os padr\u00f5es de vida puro e casto dos crist\u00e3os era, para os pag\u00e3os, algo de \u201cextraordin\u00e1rio e inacredit\u00e1vel\u201d. Em particular, teve um impacto extraordin\u00e1rio sobre a sociedade pag\u00e3 a reestrutura\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, que as autoridades da \u00e9poca queriam reformar, mas que eram impotentes para conter a desintegra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos argumentos que S\u00e3o Justino M\u00e1rtir utiliza para basear a sua Apologia dirigida ao imperador Antonino Pio, \u00e9 este: os imperadores romanos est\u00e3o preocupados em restaurar os costumes e a fam\u00edlia e se esfor\u00e7am para emanar, para esse fim, oportunas leis, que se revelam, no entanto, insuficientes. Bem, por que n\u00e3o reconhecer o que conseguiram obter as leis crist\u00e3s junto \u00e0queles que a acolheram e a ajuda que podem dar tamb\u00e9m \u00e0 sociedade civil? Algumas donzelas crist\u00e3s brilhantes, mortas m\u00e1rtires, mostraram at\u00e9 onde chegava, nesse ponto, a for\u00e7a do cristianismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos pensar que a comunidade crist\u00e3 estava totalmente livre de desordens e pecados em quest\u00f5es sexuais. S\u00e3o Paulo teve que repreender um caso, at\u00e9 mesmo, de incesto, na comunidade de Corinto. Mas esses pecados eram claramente reconhecidos como tais, denunciados e corrigidos. N\u00e3o se exigia que se fosse sem pecado, nesta mat\u00e9ria, como no resto, mas de lutar contra o pecado.<\/p>\n<p>Agora vamos dar um salto das origens crist\u00e3s para os nossos dias. Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o no mundo de hoje em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pureza? A mesma, se n\u00e3o pior, do que era naquele tempo! N\u00f3s vivemos em uma sociedade que, em termos de costumes, mergulhou em pleno paganismo e em plena idolatria do sexo. A tremenda den\u00fancia que S\u00e3o Paulo faz do mundo pag\u00e3o, no come\u00e7o da Carta aos Romanos, se aplica, ponto a ponto, ao mundo de hoje, especialmente nas sociedades assim chamadas do bem-estar (cf. Rm 1, 26-27.32).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m hoje, n\u00e3o s\u00f3 se fazem essas coisas e outras piores, mas tamb\u00e9m se tenta justific\u00e1-las, ou seja, justificar toda licen\u00e7a moral e toda pervers\u00e3o sexual, desde que \u2013 dizem \u2013 ela n\u00e3o fa\u00e7a viol\u00eancia aos outros e n\u00e3o prejudique a liberdade dos outros. Como se Deus n\u00e3o tivesse nada a ver com isso!<\/p>\n<p>Fam\u00edlias inteiras s\u00e3o destru\u00eddas e dizem: o que h\u00e1 de errado? N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que certos ju\u00edzos da moral sexual tradicional deviam ser revistos e que as modernas ci\u00eancias do homem t\u00eam ajudado a lan\u00e7ar luz sobre certos mecanismos e condicionamentos da psique humana que removem ou diminuem a responsabilidade moral de certos comportamentos considerados, uma vez, pecaminosos.<\/p>\n<p>Mas este progresso n\u00e3o tem nada a ver com o pansexualismo de certas teorias pseudo-cient\u00edficas e permissivas que tendem a negar qualquer norma objetiva em quest\u00f5es de moral sexual, reduzindo tudo a uma quest\u00e3o de evolu\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea dos costumes, ou seja, a uma quest\u00e3o de cultura. Se examinarmos de perto aquela que \u00e9 chamada de revolu\u00e7\u00e3o sexual dos nossos dias, percebemos, com espanto, que ela n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma revolu\u00e7\u00e3o contra o passado, mas \u00e9, muitas vezes, tamb\u00e9m uma revolu\u00e7\u00e3o contra Deus.<\/p>\n<p><strong>4. Puro de cora\u00e7\u00e3o!<\/strong><\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o quero me demorar muito descrevendo a situa\u00e7\u00e3o atual que nos circunda que, al\u00e9m disso, todos conhecemos bem. Muito me interessa, de fato, descobrir e transmitir o que Deus quer de n\u00f3s crist\u00e3os em tal situa\u00e7\u00e3o. Deus nos chama ao mesmo empreendimento ao qual ele chamou nossos primeiros irm\u00e3os de f\u00e9: \u201cse opor a essa torrente de perdi\u00e7\u00e3o\u201d. Nos chama a fazer a \u201cbeleza\u201d da vida crist\u00e3 brilhar novamente diante dos olhos do mundo. Nos chama a lutar pela pureza. Lutar com tenacidade e humildade; n\u00e3o necessariamente a ser, todos e imediatamente, perfeitos. Esta \u00e9 uma luta t\u00e3o antiga quanto a pr\u00f3pria Igreja.<\/p>\n<p>Hoje h\u00e1 algo novo que o Esp\u00edrito Santo nos chama a fazer: ele nos chama a testemunhar ao mundo a inoc\u00eancia original das criaturas e das coisas. O mundo afundou muito baixo; o sexo \u2013 foi escrito \u2013 subiu na cabe\u00e7a de todos. Algo muito forte \u00e9 necess\u00e1rio para quebrar esse tipo de narcose e intoxica\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9 necess\u00e1rio despertar no homem a nostalgia da inoc\u00eancia e da simplicidade que ele traz em seu cora\u00e7\u00e3o com pung\u00eancia, ainda que tantas vezes coberta de lama.<\/p>\n<p>N\u00e3o de uma inoc\u00eancia de cria\u00e7\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1 mais, mas de uma inoc\u00eancia de reden\u00e7\u00e3o que nos foi devolvida por Cristo e que nos \u00e9 oferecida nos sacramentos e na palavra de Deus. S\u00e3o Paulo assinala este programa quando escreve aos Filipenses: \u201d Sejam irrepreens\u00edveis e simples, filhos de Deus imaculados no meio de uma gera\u00e7\u00e3o perversa e degenerada, na qual voc\u00eas devem brilhar como estrelas no mundo, mantendo no alto a palavra de vida \u201c(Fp 2, 15 ss). Isto \u00e9 o que o ap\u00f3stolo chama, em nosso texto, \u201cusar as armas da luz\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta mais uma pureza feita de medos, de tabus, de proibi\u00e7\u00f5es, de fuga rec\u00edproca entre o homem e a mulher, como se um fosse, sempre e necessariamente, uma armadilha para o outro e um inimigo potencial, mais que uma \u201cajuda\u201d. No passado, a pureza tinha sido reduzida, \u00e0s vezes, pelo menos na pr\u00e1tica, precisamente a este complexo de tabu, de proibi\u00e7\u00f5es e de medos, como se a virtude tivesse que se envergonhar perante o v\u00edcio e n\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, o v\u00edcio a ter que se envergonhar perante a virtude.<\/p>\n<p>Devemos desejar, gra\u00e7as \u00e0 presen\u00e7a em n\u00f3s do Esp\u00edrito, uma pureza que seja mais forte do que o v\u00edcio; uma pureza positiva, n\u00e3o somente negativa, que seja capaz de fazer-nos experimentar a verdade dessa palavra do Ap\u00f3stolo: \u201cTudo \u00e9 puro para os que s\u00e3o puros!\u201d (Tt 1, 15) e desta outra palavra da Escritura: \u201d Aquele que est\u00e1 em ti \u00e9 maior do que aquele que est\u00e1 no mundo \u201c(1 Jo 4, 4).<\/p>\n<p>Temos de come\u00e7ar curando a raiz que \u00e9 o \u201ccora\u00e7\u00e3o\u201d, porque \u00e9 dali que sai tudo aquilo que polui verdadeiramente a vida de uma pessoa (cf. Mt 15, 18 ss). Jesus dizia: \u201cBem-aventurados os puros de cora\u00e7\u00e3o, porque ver\u00e3o a Deus\u201d (Mt 5, 8). Eles realmente ver\u00e3o, isto \u00e9, ter\u00e3o novos olhos para ver o mundo e Deus, olhos limpos que sabem ver o que \u00e9 belo e o que \u00e9 feio, o que \u00e9 verdade e o que \u00e9 mentira, o que \u00e9 vida e o que \u00e9 morte. Olhos, em suma, como os de Jesus.<\/p>\n<p>Com que liberdade Jesus podia falar de tudo: das crian\u00e7as, da mulher, da gesta\u00e7\u00e3o, do parto\u2026 Olhos como os de Maria. A pureza n\u00e3o consiste mais, ent\u00e3o, em dizer \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0s criaturas, mas em dizer \u201csim\u201d; sim em quanto criaturas de Deus que eram, e permanecem, \u201cmuito boas\u201d.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o nos iludimos. Para poder dizer esse \u201csim\u201d, devemos passar pela cruz, porque depois do pecado, nosso olhar sobre as criaturas se tornou nublado; a concupisc\u00eancia foi desencadeada em n\u00f3s; a sexualidade n\u00e3o \u00e9 mais pac\u00edfica, tornou-se uma for\u00e7a amb\u00edgua e amea\u00e7adora que nos atrai contra a lei de Deus, apesar de nossa pr\u00f3pria vontade. Na primeira medita\u00e7\u00e3o desta Quaresma, insistimos em um aspecto particularmente atual e necess\u00e1rio da mortifica\u00e7\u00e3o: a dos olhos. Um jejum saud\u00e1vel das imagens \u00e9 mais importante hoje do que o jejum das comidas e das bebidas.<\/p>\n<p>Concluo trazendo \u00e0 vossa mente a experi\u00eancia de Santo Agostinho recordada no in\u00edcio. Depois daquela experi\u00eancia, o santo inventou uma ora\u00e7\u00e3o toda sua para obter a castidade: \u201cSenhor, disse, tu me ordenas ser casto. Pois bem, d\u00e1-me o que me ordenas e ent\u00e3o ordena-me o que quiseres\u201d. Uma ora\u00e7\u00e3o que todos podemos faz\u00ea-la nossa, recordando que nisso, bem como em qualquer outro campo, sem a gra\u00e7a de Deus n\u00e3o podemos fazer nada.<\/p>\n<p>(Tradu\u00e7\u00e3o de Th\u00e1cio Siqueira, Associa\u00e7\u00e3o Marie de Nazareth)<\/p>\n<p>____________________________<\/p>\n<p>[1] S. Agostino, Confessioni, VIII, 11-12.<\/p>\n<p><strong>FONTE:<\/strong>\u00a0Radio Vaticano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Pregador da Casa Pontif\u00edcia, padre Raniero Cantalamessa OFM, prop\u00f4s ao Papa Francisco e \u00e0 C\u00faria reunidos na Capela Redemptoris Mater, no Vaticano, a quinta e \u00faltima prega\u00e7\u00e3o da Quaresma, intitulada \u201cUsemos as armas da luz \u2013 A pureza crist\u00e3\u201d. Confira o texto na \u00edntegra: \u201cA pureza crist\u00e3 Em nosso coment\u00e1rio \u00e0 par\u00eanese da Carta [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":65,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[9,11,12,6,4,5,8,10,7],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64"}],"collection":[{"href":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":66,"href":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64\/revisions\/66"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/65"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rccacre.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}